O corpo descoberto

descoberto“Uma coleguinha do meu filho esta com a mania de abaixar a calça das meninas e dos meninos. Não sei o que fazer”. Quem nos diz isso é a mãe de um menino de cinco anos, provavelmente intrigada e surpresa por ver o filho, que há pouco era um bebe, envolvido nessa situação.
Pais e educadores, atualmente herdeiros das descobertas da psicanálise, têm uma noção de que é importante tomar cuidado com as manifestações da sexualidade nas crianças, mas também, frequentemente, ficam confusos com isso. É para impedir, para deixar acontecer, para distrair a criança com outra brincadeira?
Em uma aula de natação de crianças de seis a set anos, um menino, ao ouvir a coleguinha dizer que iria nadar pelada, faz a seguinte exclamação: “Que irado… eu vou morrer de rir!”
O comentário mostra claramente a diferença entre a sexualidade adulta e a infantil. Um homem adulto ao ver uma mulher nadar pelada tem pensamentos e sensações ligadas a suas experiências de vida e ao seu corpo maduro, em nada parecidos com os de um menininho de seis anos de idade.
Quando essa diferença é desconhecida, geram-se interpretações equivocadas sobre os jogos corporais infantis. Já vimos professores assustados com crianças bem pequenas que se deitam umas sobre as outras e dão muitas risadas.
A garota do primeiro exemplo pode estar curiosa sobre o que há embaixo das calças. Provavelmente já notou a diferença entre meninos e meninas e pode estar querendo “descobrir” mais, desvendar outros enigmas. Pode ficar estimulada com a euforia que se desencadeia na atividade corporal, mas com certeza, tudo isso é muito diferente da excitação sexual dos adultos.
A exploração do corpo e das sensações é bem- vinda quando se dá entre crianças de idades próximas. São prazerosas, e manifestam o impulso para a “descoberta”, para o conhecimento. Elas estão brincando e pesquisando os mistérios da vida, a diferença entre os sexos, o nascimento.
O papel do educador deve ser de ensinar costumes, ‘na nossa sociedade não vamos para a rua sem roupa’ , ‘não tiramos a roupa dos outros em público’. Deve também ensinar a respeitar aquele que não queira participar de brincadeiras corporais. Mas isso é bastante diferente de dizer que ‘ é feio’, ‘não se deve fazer isso’. Seria o mesmo que dizer ‘não seja curioso’, ‘não investigue’, ‘ não queira saber’.
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 Marcia Arantes e Helena Grinover

http://marciaarantes.com

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