Crianças na rua da amargura

Reach for the SkyOs jornais têm noticiado nos últimos dias a situação de crianças com idades entre 9 e 15 anos que perambulam por ruas de São Paulo, formam grupos que roubam ou praticam pequenos assaltos.
Sabemos que essas notícias são apenas um fragmento revelador da imensa fratura exposta da nossa sociedade quando se considera a estrutura de cuidados com as crianças.
Chamou nossa atenção, no entanto, uma informação da Folha de São Paulo no dia 28/08/2011: as meninas roubaram cremes para alisar cabelo e lentes de contato verdes para mudar a cor dos olhos. Declararam que querem ficar bonitas, se acham feias e desejam o que as ‘loirinhas’ têm, como celulares e outros ícones de consumo, de preferência com a cor rosa.
Revelam, dessa maneira, um desejo de mudança, querem se transformar e talvez viver em um mundo mais cor de rosa. Infelizmente, estão erradas quanto aos métodos utilizados para ‘virar outra pessoa’. Além disso, estão muito longe de seus ideais, importados de países ricos onde a população é, predominantemente, loura de cabelos lisos e olhos claros.
Mas o que nos interessa aqui é marcar o desejo de mudança dessas meninas. O desejo é uma força psíquica poderosa que pode ajudá-las a sair dessa rota de choque com as instituições e as leis, para trilhar um caminho de construção dentro da realidade.
Essas pobres abandonadas terão uma brecha de salvação se, antes de as rotularmos de ‘ladras’ ou ‘delinquentes’, levarmos em conta que enxergam um ideal para si mesmas, o que é fundamental para construir um projeto de vida. É necessário escutá-las.
Quando o educador valoriza as ambições e desejos expressos por crianças e adolescentes, sobretudo quando provenientes de grupos cujas carências sociais são enormes, pode ajudá-los. Trata-se de transformar esses ideais que, num primeiro momento, são fantasiosos, ousados demais, fora da realidade, em projetos factíveis. Nesse processo os futuros cidadãos irão desenvolver escolhas, descobrir aptidões, e a imagem que têm de si mesmos ficará modificada.
Haverá aí uma chance daquelas meninas se sentirem bonitas, sem precisar de olhos verdes roubados.
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Helena Grinover e Marcia Arantes

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