Mentiras

Boy crossing fingers behind back‘Meu filho mentiu para mim! Ele escondeu o boletim, disse que a escola não tinha mandado.’ ‘Minha filha disse que fez a lição, quando fui ver, não tinha feito!’ ‘Ele disse que foi para a casa do amigo estudar e não foi’.
Os pais querem acreditar que podem sempre confiar nos filhos. A constatação de que não é assim, abala profundamente a certeza de que conhecem esse ser tão próximo. Percebem, decepcionados, que não podem ter o controle que esperavam. Pergunta inevitável: e agora, o que fazer? Ou ainda: porque ele fez isso?
A criança, até aproximadamente seis anos, não sabe o que é mentir. Ainda não sabe que seus pensamentos são secretos, que ninguém pode vê-los, e menos ainda que suas palavras podem ocultar o que está pensando. Trata-se de uma conquista do seu desenvolvimento perceber que pode esconder o que sabe. Isso é concomitante a ter privacidade, ter pensamentos não compartilhados, adquirir alguma liberdade. A mentira é ainda mais complexa. Quem mente manipula a expectativa do outro, regula o que vai dizer de acordo com o que imagina ser o desejo do ouvinte. O prazer dessa descoberta pode levar a criança pequena a mentir, numa espécie de ‘brincadeira’ para escapar da soberania do adulto.
Quando ocorrem mentiras como nos exemplos acima, nas idades em que se espera que haja responsabilidade com as tarefas escolares e com os acordos familiares, são um sinal para refletir. Será que há falta de privacidade ou de liberdade, um excesso de controle dos pais? Ou ainda, a criança está evitando críticas, ameaças, punições e no momento de enfrentar a dura verdade das notas baixas na escola, das lições sem fazer, os adultos não são vistos como colaboradores? A mentira que supostamente protegeria a criança não está ocorrendo para evitar dissabores aos adultos, não é uma maneira de preservá-los?
Há motivos e intensidades diferentes nestas situações; cabe aos educadores a difícil tarefa de avaliar e de não mentir para si mesmos ao lidar com tudo isso. Conversar com franqueza é uma iniciativa interessante. Pode proporcionar a revisão de expectativas dos dois lados.

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Helena Grinover e Marcia Arantes

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