Mamãe foi trabalhar

Mother returning from business tripEssa foi a conversa entre mãe e filha de dois anos, de manhã cedo, no momento em que se despediam. ‘Filha, a mamãe agora vai trabalhar’. ‘Mas você não precisa ir, o papai já foi’, disse a pequena.
A avó canta para o neto, cujos pais haviam saído: ‘papai foi prá roça, mamãe foi trabalhar’. O garotinho interrompe a música e diz ‘não, é o papai que foi trabalhar’.
Assim que nascem, os bebês ocupam um espaço enorme na vida de suas mães. O dia e a noite são tomados por todos os cuidados que o recém nascido precisa. Há mães que não arrumam tempo para tomar banho, escovar os dentes, realizar os cuidados mínimos de que elas mesmas precisam, e isso é bastante normal.
‘Filho, você é tudo na minha vida’. Quem já não ouviu essa frase dita pela mãe ao seu bebê? Isso quer dizer que quem tem um filho não precisa de mais nada? Certamente não, porém os bebês precisam, num primeiro momento, ocupar o lugar de ser tudo na vida de alguém. É o período em que se assenta o primeiro tijolo na construção desse novo sujeito: os sentimentos da mãe estão todos voltados para o filho, ele é o centro da vida. Aos poucos a criancinha vai sendo deslocada desse lugar, a mãe vai abrindo espaço para outros interesses. É o momento em que ela ajuda o filho a fazer a passagem do ‘ser tudo’ para o ‘não ser tudo’ para sua mãe.
As criancinhas reagem, como mostram nossos exemplos, ao verificarem que o papai, o trabalho ou um papo com as amigas, as afastam da mamãe. As mulheres mães, por sua vez, sentem-se divididas. Para tranquilizá-las, podemos dizer que ao deslocarem a criança do centro, depois de a terem aí instalado, estão criando condições para que ela prossiga no seu desenvolvimento.
O pequeno ser fica em outra posição quando aquela que diz ‘você é tudo’ sai em busca da realização de desejos e necessidades que ele não pode atender. A partir dessa nova posição ele poderá perceber que há um poder acima dele que comanda a vida da mãe, o que fornecerá a base para a sua vida em sociedade.
A inserção social em todos os seus aspectos, desde a aceitação de regras e limites, noção de igualdade de direitos, respeito às diferenças, reconhecimento de autoridade, realização de potenciais, é um longo caminho. Este se inicia com a noção precoce de que existe uma organização maior, à qual até seus pais estão submetidos.
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Helena Grinover e Marcia Arantes

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